Existe um ensinamento clássico de Rabbi Shneur Zalman de Liadi, o Alter Rebbe, sobre o mês de Elul — aquele que precede Rosh Hashaná — que atravessa gerações e continua tocando fundo: nesse mês, o Rei está no campo.
Durante o ano inteiro, ensina o Rebbe, o Rei permanece em Seu palácio. Para ter audiência, é preciso agendar, passar por corredores, protocolo, guardas. Só alguns conseguem chegar até Ele — e mesmo assim, com dificuldade. Mas em Elul, algo muda. O Rei sai do palácio. Vai ao encontro do povo no campo. Caminha entre nós. E ali, no meio da lavoura e do cotidiano, qualquer um pode se aproximar. Basta querer.
O que estamos coroando
Rosh Hashaná não é aniversário do mundo, como às vezes se repete de forma imprecisa. A Mishná em Rosh Hashaná 1:2 nos ensina que neste dia todos os habitantes do mundo passam diante de Hashem kivnei maron — como ovelhas diante do pastor. É o dia do julgamento, sim. Mas é, antes de tudo, o dia da coroação.
Nas tefilot do dia, especialmente na Amidá do Mussaf, três seções organizam nossa alma: Malchuyot (versos sobre a realeza de Hashem), Zichronot (versos sobre a memória) e Shofarot (versos sobre o toque do shofar). A ordem não é acidental. Primeiro coroamos, depois pedimos que Ele Se lembre de nós, e por fim tocamos o shofar — que anuncia essa coroação ao mundo inteiro.
הַיּוֹם הֲרַת עוֹלָם, הַיּוֹם יַעֲמִיד בַּמִּשְׁפָּט כָּל יְצוּרֵי עוֹלָמִים — Hoje é a concepção do mundo, hoje se apresentam em julgamento todas as criaturas do universo.
O shofar e o que ele desperta
O Rambam, em Hilchot Teshuvá 3:4, dá uma das interpretações mais poderosas sobre o toque do shofar. Ele escreve que, embora o toque seja um decreto da Torá, há nele uma alusão — uma mensagem: "Despertai, adormecidos, do vosso sono, e vós que dormis, levantai-vos do vosso torpor, examinai vossas ações e retornai em teshuvá."
Não é o barulho do shofar que desperta. É o que ele representa. O som quebrado do shevarim, o soluço do teruá, o grito longo do tekiá gedolá — cada nota é um chamado para olhar para dentro. Onde estamos? Para onde estamos indo? Que tipo de pessoa nos tornamos ao longo do último ano?
Uma coroação pessoal
Aqui está o ponto mais delicado e mais transformador de Rosh Hashaná: coroar Hashem como Rei não é um ato litúrgico coletivo apenas. É um compromisso íntimo. Cada um de nós tem tronos internos — dos hábitos, do orgulho, do medo, do costume. Coroar Hashem significa retirar desses tronos aquilo que não deveria estar lá e restituir o lugar a Quem legitimamente pertence.
Rabbeinu Yonah, em Sha'arei Teshuvá, ensina que a verdadeira teshuvá tem três pilares: reconhecer o erro (hakarat hachet), lamentá-lo (charatá), e assumir compromisso de não repetir (azivat hachet). Rosh Hashaná é o dia em que abrimos essa porta — e os dez dias que seguem, até Yom Kipur, são o tempo de atravessá-la.
O que traremos para 5787
Cada ano judaico traz seu próprio caráter, sua própria energia espiritual. 5787 (תשפ"ז) — cuja gematria pode ser lida como tashpaz, aludindo ao versículo "tashpiá zahav", "derramar-se-á ouro". Que este ano seja de abundância — não apenas material, mas de sentido, de estudo, de encontros verdadeiros, de crescimento.
Na Sinagoga Espaço Torah, nos preparamos para receber o chag com o coração aberto. Que possamos, cada um em seu campo, encontrar o Rei que veio ao nosso encontro. E que, ao coroá-Lo, sejamos coroados com um ano bom, doce e cheio de vida.
Ktivá vachatimá tová — que sejamos escritos e selados para a vida boa.